quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Parte IV


O centro estava como em todos os dias, e assim mesmo eu esperava, pois então bem no meio da manhã ele estaria ali com sua carruagem. Aguardei, evitando que as pessoas vissem meus chocolates, pois não podia arriscar que alguém decidisse comprar aquele com a cereja.
Na hora esperada eles apareceram: o barão e seu filho. Aprumei-me toda e descobri a bandeja enquanto Wes, o lindo Wes, saía de seu transporte. Não o deixei andar muito e logo me aproximei, assim que o pai dele entrou na loja especializada em cavalos.
Meu coração batia muito veloz, mais do que nunca, e eu esperava que minha timidez e o fato de nunca na vida ter tido coragem de caminhar até ele e lhe dirigir a palavra não fossem estragar tudo. Respirei fundo para me acalmar, coloquei no rosto o sorriso que ensaiei e, cruzando a frente dele, falei:
­– Com licença, senhor, bom dia! Já experimentou trufas de chocolate e frutas? Eu garanto que sua vida vai mudar depois de provar essas. – E sorri com a bandeja estendida, rindo por dentro por ter tido coragem de falar e ainda acrescentar uma ironia!
Ele foi pego de surpresa. Olhou meio confuso dos meus doces para a minha cara angelical sorrindo em sua direção.
Meu coração fazia uma tremenda agitação, pulsando quase em minha garganta, e eu torcia para que ele não acabasse pulando para fora pela boca. Wes, contudo, parecia não perceber meu nervosismo. Por um momento achei que ele fosse pedir licença e me ignorar, pois olhou para a loja de artigos equinos como se quisesse entrar nela, mas então seu olhar se voltou para mim e ele pareceu me notar de verdade pela primeira vez.
– Gostaria de lhe dar uma amostra grátis, assim o senhor pode provar o quão gostoso é – prossegui. Quando nosso contato visual se tornou real, de repente murchei, e o que eu estava prestes a fazer banhou meu cérebro com receio e certa culpa. Tive vontade de sair correndo. Eu estava quase fazendo isso, quando ele disse:
– Você é a garota que perdeu a mãe, não é?
E meu coração bateu ainda mais veloz, tanto por me lembrar da perda quanto por ser Wes dizendo isso. Ele sabia quem eu era? Ele... ele sabia algo sobre mim!
– Eu... ahn... sim...
– Sinto muito. Espero que não fique aborrecida por as pessoas comentarem sobre isso. Você sabe, todo mundo aqui gosta muito de cuidar da vida dos outros...
Eu tinha consciência de que o motivo de ele saber era mais pela falta de assunto numa cidade como aquela do que por minha mãe ter tido alguma importância. Ainda assim me admirou que Wes soubesse quem eu era. Talvez várias pessoas estivessem se solidarizando agora que eu era mais uma órfã. Provavelmente sabiam que eu acabaria morando na rua se não conseguisse dinheiro o bastante para me sustentar. Pela cara de Wes, ele era mais um desses que sentia pena.
Ele olhou para minha bandeja e abriu um sorriso.
– Eles parecem bons – comentou. – Posso então pegar aquela amostra grátis? Garanto que se gostar compro eles todos.
Eu não sabia mais como reagir, então apenas sorri amarelo, enfrentando uma luta interna complicada. Antes que eu pudesse impedir, Wes pegou o do meio, o da cereja, e olhou para mim antes de morder, como que esperando aprovação.
– Esse mesmo?
Olhei para os lábios dele, para os olhos verdes brilhantes me fitando e não tive coragem de pará-lo. Assenti com a cabeça. O desejo tomava todo o meu corpo. Ele mordeu e degustou, engoliu e fez um som (“hummmmm!”) de deleite, e então estava feito. Continuei sorrindo forçado, minha cabeça a mil... Eu temia desmaiar.
Ele lambeu os dedos e exclamou:
– Minha nossa, isso é delicioso! Vou cumprir minha promessa, senhorita, e levar... – e parou de repente quando seus olhos voltaram a encarar os meus. Desta vez era como se ele estive me vendo mesmo pela primeira vez, lá no fundo. Havia um deslumbre nítido em seus olhos, e não apenas pela qualidade do doce.
Era pelo que eu havia colocado dentro.
Ele ficou boquiaberto e mais pomposo. Sorriu sedutor para mim e limpou os lábios sujos de chocolate.
– Suas mãos talentosas são uma bênção, linda dama... – Linda dama! Ele foi em frente. – Assim como tudo na senhorita... Como não a reparei aqui antes?
– Talvez já tenha me visto, mas não estava realmente olhando – respondi, meu ego mais feliz do que nunca.
– Que pecado o meu! Como se chama?
– Agnes.
– Um belo nome. Eu sou Wes, mas imagino que você já saiba... – Claro. Todo mundo conhecia o barão Adalwin e seu filho.
Ficamos nos fitando por mais algum tempo, então ele vasculhou em seu bolso e me deu um saquinho de moedas.
– Pelos chocolates. Quero todos.
Espiei dentro e minhas sobrancelhas subiram ao ver kutles de valor e até mesmo moedas brancas!
– Oh. Não posso aceitar isso tudo...
– Eles valem, acredite em mim. – E deu uma piscadela. Estava querendo me ajudar, a pobre garota órfã. – Mas quero também a sua companhia hoje à noite – ele acrescentou, e meus olhos arregalaram.
Olhei o saco de moedas. Antes, porém, que minha mente fosse por um caminho obscuro, ele continuou:
– Não, por favor, não pense mal de mim! – Wes estendeu as mãos. Parecia muito nervoso, como se estar perto de mim fosse embaraçoso para ele também. – Eu apenas quero conversar com você, conhecê-la melhor. Por favor, aceite meu convite. Eu seria o homem mais feliz do mundo!
Ri um pouco, satisfeita pela atenção dele, pelo convite que sempre sonhei receber.
– Tudo bem, eu aceito, vamos sim nos encontrar hoje à noite.
– No píer, ao fim do crepúsculo?
– Parece ótimo – assenti.
– Perfeito! Vejo você, então. – Ele piscou e virou-se para ir. Levantei a bandeja.
– Ei, seus chocolates!
– Traga-os para mim mais tarde! – o filho do barão respondeu enquanto se afastava. Provavelmente queria garantir que eu não faltasse ao encontro, já que ele havia pago por aquilo.
Assim que ele entrou na loja, depois de espiar para trás várias vezes e sorrir, fui embora praticamente saltitando. Não dava para acreditar que havia dado certo. Eu finalmente teria um encontro com Wes, o rapaz com quem sonhei minha vida inteira. A sorte parecia estar, afinal, se voltando ao meu favor.
Ao chegar em casa, deitei na cama suspirando. Tirei o frasquinho do bolso e beijei a poção do amor. 

Continua...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Parte III


Com o coração palpitando rápido, esgueirei-me até a porta. O silêncio reinava e o único lampião aceso na rua estava longe o bastante para não me revelar. Parei de frente à fechadura e enfiei nela a chave que o mensageiro havia me dado, torcendo para ele não ter cometido um engano. Quando o trinco girou, suspirei aliviada, porém ainda atenta, pois eu não sabia se alguma proteção mágica tinha sido posta na entrada.
Esperei com a mão na maçaneta. Como nada aconteceu por meio minuto, arrisquei empurrar a porta para dentro. Antes de pisar na loja, olhei para o chão. Ali, logo após o portal, havia uma linha brilhante desenhada no piso de madeira. Fui alertada por Madame Lusa que isso era bastante comum em estabelecimentos de encantadores, então tirei do bolso um pincel que ela havia me dado, agachei e varri a linha, que se espalhou no ar como pó, emitindo um sussurro. Quando o silêncio voltou, olhei para trás para ter certeza de que não estava sendo observada. Tudo limpo. Ninguém morava no centro, só havia pássaros e grilos por ali àquela hora da noite.
Então entrei. Parei de novo e não ouvi nenhum alarme. Madame Lusa havia me dito que alarmes para chamar os justiceiros eram bem comuns nas casas e lojas de pessoas mágicas. Não havia muitas delas em Rasminn. Madame Lusa disse que eu era corajosa de escolher aquele alvo. Não que Salizar fosse muito poderoso ou precavido, mas ele era famoso e qualquer erro na minha tentativa traria os justiceiros imediatamente. A maioria dos ladrões que visavam coisas mágicas preferia invadir casas de barões e recantos de encantadores mais escondidos.
Caminhei cuidadosamente lá dentro, medindo meus passos para não fazer barulho. Devagar me aproximei das vitrines. As poções que eu procurava estavam nas prateleiras mais altas, protegidas por um vidro. Afastei a escada bem lentamente até o ponto ideal, então subi, trêmula, um degrau de cada vez. Quando minha mão conseguia alcançar o frasco da poção que eu queria, peguei o acendedor que Madame Lusa havia me emprestado e direcionei-o à vitrine.
As chamas azuis que saíram da ponta do acendedor mágico derreteram o vidro. Quando o buraco que se formou ficou grande o bastante para eu enfiar a mão, desliguei o fogo e estiquei o braço cuidadosamente. Antes de pegar o frasco, toquei-o com um dedo para ver se eu não seria machucada.
Madame Lusa tinha me alertado que as poções roubadas poderiam queimar as mãos, e para isso me deu a luva que eu estava usando. Ao constatar que eu não seria ferida, coletei o pequeno frasco rosa e aquele ao lado deste – a poção que a Madame me pedira. Antes de descer as escadas, espirrei no vidro danificado um dos produtos emprestados pela encantadora e o material se refez completamente, para minha surpresa. Havia vários daqueles frascos cor-de-rosa, então Salizar talvez nem notasse o sumiço de um, do mesmo modo a poção da juventude.
Desci e fui até a prateleira de destaque onde ficavam os líquidos para espinhas. Esses eram muito procurados e pouco caros, então apenas apanhei um e coloquei na bolsa.
Assim que atravessei a porta para sair da Encantos & Sonhos, pintei a linha de proteção de volta no chão com o pincel, um sussurro saindo para o ar, e tranquei a loja. Por fim, joguei a chave por debaixo da porta, para que o dono pensasse que a havia deixado cair ali antes de sair, e corri discretamente para longe da cena do crime.

***

Voltei ao esconderijo de Madame Lusa, devolvi os itens mágicos a ela e lhe dei a poção que me pediu. Ela aparentou surpresa e satisfação e me senti orgulhosa de mim mesma. Eu sabia que depois daquela missão havia ganhado o respeito da encantadora, e provavelmente de outros ladrões, caso viessem a saber.
Passei o resto da madrugada cozinhando. Ao amanhecer do dia, meus chocolates estavam prontos. Quando terminava de rechear as trufas, abri cuidadosamente o frasquinho rosa que eu havia roubado, e, ao fazê-lo, um aroma delicioso exalou no ar.
Fechei os olhos, apreciando, e em seguida, com muita cautela, deixei cair uma gota generosa do líquido mágico dentro da última trufa da bandeja. Tampei-a com mais chocolate, coloquei uma pequena cereja por cima para diferenciá-la das demais e sorri para minha obra finalizada. Eu estava morta de cansaço, mas tinha mais trabalho a fazer, então joguei um pouco de água no rosto, dei batidinhas em minhas bochechas e arrumei os cabelos despenteados.
Numa última olhada no espelho, concluí que eu estava com uma aparência aceitável. Alisei o vestido longo, o único que tinha para ocasiões, e treinei o sorriso. Cobri a bandeja de trufas, peguei-a nas mãos e saí de casa.

Continua...

sábado, 17 de janeiro de 2015

Parte II


O centro era movimentado já àquela hora da manhã. Ninguém perdia tempo dormindo até tarde em Rasminn. Desta vez, porém, não fiz como todos que montavam suas bancas e dispunham os produtos onde quer que eles fossem ficar à vista. Minhas costuras tinham permanecido em casa e eu não pretendia fiar ou tricotar mais nada.
Escondi o meu luto e fingi que eu era uma cliente, apenas uma daquelas pessoas ricas passeando, ou as ilegais que só agiam à noite e passavam o dia usufruindo dos seus ganhos. A diferença era que eu não possuía roupas elegantes, mas pelo menos eu estava usando o único vestido que tinha para ocasiões especiais (ou o mais especiais que podem ser os compromissos dos pobres).
A minha terra era mágica mas eu não o era, assim como a maioria das pessoas ali. Nascer com o dom era quase que uma porta para o sucesso. Eu já havia tentado, ah como havia! Se tivesse conseguido lançar ou produzir qualquer coisa útil eu nunca iria pensar em entrar para o crime.
Para os menos afortunados, essa parecia ser a única chance de uma vida que não fosse uma montanha de lixo de frustrações. Não estou dizendo que fazer um crime é fácil, eu estava comprovando aquilo naquele momento, mas nem mesmo o encarceramento parecia uma possibilidade que me fizesse desistir.
Eu sabia de vários homens e mulheres que haviam sido pegos, no entanto sempre era possível negociar com os justiceiros. Eu não sabia de ninguém que havia parado na prisão de Ashmon, mesmo sendo ali perto. Talvez um ou dois com feitos terríveis nos ombros, mas na maioria dos casos isso não acontecia em Rasminn. Um fora-da-lei ajudava o outro, como irmãos.
Eu não tinha amigos que aprovariam minhas intenções, e talvez eu nem precisasse ir atrás de um grupo. Minha primeira experiência com roubo seria para um propósito pessoal que, se funcionasse, eu não ia precisar cometer um crime nunca mais. Eu não ligava para as consequências enquanto houvesse pelo menos uma pequena chance de sucesso. O fundo do poço já era meu futuro mesmo...
Assim, caminhei pelas ruas de tijolos olhando ao redor, registrando tudo o que podia. Passei pelo Câmbio, pelo açougue, pela loja de roupas... e então parei a alguns metros da Encantos & Sonhos. Nesse mesmo instante, uma carruagem buzinou para mim, eu estava bloqueando a passagem. Afastei-me e eles passaram: o Barão Adalwin e seu filho, Wes, sentados pomposamente, chacoalhando no acento pelo movimentar turbulento das rodas no chão desigual.
Podia ser coisa da minha imaginação, mas jurei ter visto Wes me direcionar um olhar. Meu coração disparou, aumentando minha ansiedade de seguir em frente com o plano. Há muitos anos eu tentava obter a atenção dele, mas havia sempre garotas demais fazendo o mesmo. Era difícil resistir àqueles olhos verdes, e o negro sólido de seus cabelos, e o seu sorriso perfeito, e a elegância que não parecia haver em mais ninguém que eu via ao meu redor...
Parei em um ponto que me permitia ver o interior da Encantos & Sonhos. Salizar estava lá, tirando a poeira de seus frascos. Olhei para a posição do sol. Oito horas. Fiquei ali, e não demorou nada e quem eu esperava chegou.
O jovem mensageiro, mais novo do que eu uns cinco anos provavelmente, caminhava para a loja e eu o parei. Ofereci-lhe alguns doces para que me dissesse onde o Encantador guardava a chave da loja. Empolgado com o desafio, ele aceitou. O menino então entrou, entregou ao dono do negócio a carta que tinha ido deixar, e enquanto Salizar procurava a gorjeta, vi que ele mexeu em uma bolsa. Assim que o mensageiro voltou, deu-me a chave.
Levantei as sobrancelhas. Eu não esperava por aquilo.
— Sou conhecido como Mãos Velozes — disse ele, orgulhoso.
Descobrir que o mensageiro tinha um codinome para o crime não me surpreendeu como deveria.
— Mas e como ele vai trancar a loja?
— Essa é a chave reserva.
— E você não acha que ele põe também proteções mágicas? — verbalizei o que vinha pensando e tinha me tirado o sono aquela noite.
— Sim, eu acho — o mensageiro respondeu tranquilo. — Mas se quer fazer isso, deve procurar Madame Lusa. Ela vai lhe dar todos os aparatos mágicos.
— Vender, você quer dizer. — Meu ânimo foi para o chão.
— Ela faz empréstimos, digamos assim. Se você é bem sucedido na missão, então significa que o equipamento funciona e você saiu com algo de valor.

***

Cheguei ao esconderijo de Madame Lusa no fim da tarde, e nunca o teria achado se não fosse pelas instruções do mensageiro. Havia sido preciso enfrentar uma longa caminhada pela floresta úmida que cercava a praia.
Dentro de uma das cavernas, Madame Lusa mantinha seu “ateliê” de artes mágicas, objetos para o crime espalhados em todas as superfícies. Senti um frio no estômago ao ver todas aquelas coisas sinistras. Ela era uma mulher pequena e muito calada, seus longos e embaraçados cabelos pretos afastados do rosto para que ela não fosse coberta por eles.
Eu disse qual era meu objetivo e ela me deu todos os materiais necessários, explicou como usá-los e prometeu sigilo. Fez com que eu assinasse um contrato que dizia que eu deveria devolver tudo no dia seguinte, junto com o pagamento a negociar. Ela me pediu uma poção da juventude, e o mensageiro, por sua vez, uma poção para espinhas (os doces, afinal, não tinham sido suficientes pelo serviço dele).
Assim, naquela madrugada, vesti-me de preto, enfiei meus cabelos castanhos dentro do capuz e, com os novos apetrechos mágicos, parti para colocar a segunda parte do meu plano em ação.

Continua...