domingo, 8 de fevereiro de 2015

Parte V


Eu não conseguia me lembrar de nenhum momento na minha vida em que tivesse estado tão feliz e excitada. Na loja Costuras Milagrosas, experimentando vestidos lindos que eu podia pagar, senti mesmo que um milagre acontecia. Ali estava eu, a pobre Agnes, desabrochando e ficando realmente bonita, pronta para um encontro com Wes, o rapaz mais cobiçado do litoral.
Eu me sentia especial, mesmo sabendo que havia interferido no destino. Uma voz dentro da minha cabeça me dizia que, fazendo Wes tomar a poção do amor, qualquer uma poderia ter conseguido o que consegui. Meu outro lado, que não queria que nada estragasse aquilo, argumentava que tinha sido apenas uma gota, só uma “ajudinha” para algo que dificilmente aconteceria sem isso.
Porque eu era feia? Não, havia piores. Porque eu era pobre? Provavelmente. Porque eu era tímida demais e jamais tentaria algo com um risco de ser rejeitada? Com certeza.
Então, nessa perspectiva, é claro que a poção só tinha sido o meu auxílio, um que consegui com esforço e esperteza. Pela primeira vez, eu me sentia única e viva, um monte de possibilidades se abria no meu caminho e eu começava a acreditar que podia de fato existir felicidade em viver. 
Assim que escolhi o vestido perfeito, longo e aveludado, com bordados muito bonitos e um decote que eu nunca tinha usado e valorizava incrivelmente meu colo, Tália, a vendedora, sorriu em aprovação.
– Acho que fez uma belíssima escolha, senhorita Agnes. Sua silhueta está perfeita.
Sorri, virando-me no espelho para ver por trás.
– Esse é mesmo o melhor de todos... – E foi quando reparei que Salizar estava ali na loja também, terminando de pagar por um par de luvas. Como eu tinha estado no provador, não o vi entrar.
Meu estômago gelou e paralisei. Virei o rosto rapidamente para não ter que encará-lo. Eu tinha que sair logo dali. E se ele visse em meus olhos que eu era a ladra de sua loja?
Será que ele tinha sequer percebido o furto? Normalmente, quando um estabelecimento ou casa era roubado, no dia seguinte só se falava disso. Eu não tinha ouvido qualquer palavra sobre uma invasão à Encantos & Sonhos.
– Vou usando, Tália – avisei a moça e tirei a sacolinha de dinheiro que havia ganhado de Wes do bolso da roupa antiga largada na cadeira. Usei mais ou menos metade das moedas para pagar. A moça agradeceu e me entregou o vestido que eu usava antes, o qual dobrei como uma trouxa.
Para me dirigir à porta tive que passar por Salizar. Eu pretendia ignorá-lo, porém ele olhou para mim e disse:
– Ei, Agnes... – Parei e virei o corpo para lhe dar atenção. Ele abaixou a cabeça num cumprimento e continuou: – Eu queria pedir desculpas. Fui muito insensível e quero que saiba que sinto muito por sua mãe.
Pisquei surpresa. Ele andou para mim e pôs uma mão em meu ombro.
– Sei como é difícil passar por essa fase, perdi os meus pais quando era jovem também... – O Encantador balançou a cabeça tristemente. – Mas tenho algo para você que vai ajudá-la. – Ele, então, enfiou a mão no bolso e tirou dele um frasco de poção. Olhei-o com as sobrancelhas ainda mais erguidas. – Isso lhe dará a sabedoria de que precisa.
Peguei a poção que ele me oferecia. Era verde-clara e brilhante, muito atrativa. Não havia rótulo.
– Eu deveria ter lhe dado a Cura Líquida. Sei que não é a mesma coisa, mas isso foi o que encontrei para compensá-la.
Olhei para o líquido e para os olhos dele novamente. Eu não esperava mesmo por aquele gesto, mas as pessoas podiam surpreender, e isso era algo que eu já havia aprendido.
– Obrigada, Salizar.
Sentindo gosto de culpa na garganta, guardei o frasco. Por que ele tinha que se mostrar uma boa pessoa? Agora eu não me sentia bem tendo roubado a loja dele. Ele sorriu e apontou para meu vestido.
– A cor cereja lhe cai bem.
Olhei para baixo, para o traje novo que ainda não estava acostumada a usar. Sorri de leve, muito sem graça.
– Obrigada.
E saí dali o mais depressa e educadamente que consegui.


Continua...

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