domingo, 8 de fevereiro de 2015

Parte VI


Decidi parar em casa antes do encontro para comer alguma coisa e não passar vergonha com meu estômago roncando. Preparei uma sopa rápida, percebendo com decepção que meus suprimentos estavam escassos. Assim que terminei de comer, senti um vazio enorme.
O que eu estava fazendo? Quem eu estava me tornando? Roubando um encantador inocente só porque ele estava tentando fazer algum dinheiro vendendo uma poção valiosa, quando tinha tantos doentes na cidade, ao invés de dá-la para uma garota patética que chega oferecendo peixes?
E Wes? Quais poderiam ser as consequências de enfeitiçá-lo? Ele estava apaixonado por mim agora, mas teria ele se apaixonado se eu não tivesse lhe dado a poção?
Decidindo que estava confusa demais, peguei a poção verde-clara de Salizar. Ele havia perdido os pais cedo. Ele sabia do que estava falando. As pessoas na cidade pediam soluções mágicas para o Encantador e Salizar sempre tinha o que aquele alguém precisava. Ele havia dito que a poção me daria sabedoria. Era disso que eu mais precisava para conduzir minhas escolhas.
Abri o frasco e olhei para o líquido bonito. Era sedoso e parecia ter um gosto bom. Respirei fundo e entornei-o na boca.
Eu estava errada, no entanto, quanto ao sabor. Quase engasguei pela surpresa. Tinha gosto salgado, como se eu tivesse engolido alga marinha.
Fazendo careta, tomei um pouco de água em seguida, percebendo que eu estava com muita sede. Cinco minutos se passaram enquanto eu esperava o crepúsculo ir embora. Decidi sair quando comprovei que me sentia bem. Não parecia mais sábia, nem mais confiante, mas, ao caminhar para o píer, tive certeza de que estava indo para o lugar certo.

***

Ele não estava lá quando cheguei. A lua já se mostrava brilhante no céu que ainda não tinha enegrecido completamente. Carregando as trufas numa cestinha, caminhei pelo cais deserto àquela hora – à exceção de alguns barcos com marinheiros mais ao longe. Andei pela plataforma do píer até o final e me sentei na beira.
Não sei quanto tempo fiquei ali esperando, talvez não tenha sido muito, mas foi o suficiente para ficar entediada e roubar um ou dois chocolates da cesta. Enquanto balançava as pernas, distraída, ouvi um barulho estranho na água.
Olhei para baixo e levei um susto ao ver um peixe com a cabeça para fora. Parecia que estava me olhando... Então notei que outros peixes nadavam nas proximidades. Em alguns minutos, havia mais de um com a cabeça para fora. Era como se estivessem esperando que eu os alimentasse.
– Desculpem, essas trufas são para o Wes – eu disse para os peixes. Não esperava que eles me entendessem, mas também não esperava que fossem continuar daquela forma sinistra se aglomerando em torno de mim.
Logo havia uma quantidade absurda de peixes chegando e ficando por ali. Cheirei a mim mesma. Eu não fedia nem tinha passado nenhum perfume. O que demônios estava atraindo aquelas criaturas?
Fiquei de pé, incomodada e já assustada. Andei alguns passos, esperando com isso achar algum sossego, mas, para meu pavor, os peixes me seguiram.
– Saiam daqui! – Fiz sinal com as mãos para espantá-los.
Subitamente me senti tonta, talvez por ter me movido muito rápido. Então meu estômago começou a doer e as pernas pareceram dormentes. Segurei-me num dos pilares, tentando fazer passar as sensações estranhas, mas agora eu sentia vontade de vomitar.
Tudo estava girando, eu sentia muita sede, e aqueles peixes horrorosos continuavam ao redor do píer. Comecei a também sentir falta de ar, como se minhas narinas não conseguissem ajudar o pulmão. Onde estava Wes? Eu não podia ir para casa, não conseguia me mover, mas precisava...
Decidi andar de volta, eu não podia ficar parada ali. Porém, quando me mexi, instável como me encontrava, desequilibrei e caí na água.

***

O desespero me tomou quando imergi naquele mar escuro cheio de peixes de comportamento estranho. Se ainda fosse só isso eu não entraria em pânico, embora fosse sinistro o bastante. O problema maior é que eu parecia estar perecendo de algum tipo de doença.
Era muito escuro lá embaixo quando afundei, mas já na segunda piscada consegui enxergar, como se alguém tivesse acendido uma vela na frente dos meus olhos. Eu via claramente os peixes, ah, os malditos peixes, nadando ao meu redor, ao mesmo tempo em que era assolada por uma dor muito grande.
Pontadas no estômago me faziam encolher, formigamentos nas pernas me levavam a agitá-las com agonia e uma sensação horrível tomava minha garganta, meu nariz e a parte de trás das orelhas. Eu gritava, formando bolhas embaixo da água, nem me importando que assim perderia o fôlego mais rápido.
Eu estava morrendo de qualquer jeito.


Continua...

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