domingo, 15 de fevereiro de 2015

Parte VII



Meu corpo afundava enquanto eu relutava contra as dores. Olhei para minhas mãos e fiquei ainda mais desesperada quando notei que havia nelas um tipo de pele solta de interligação entre os dedos. Toquei meu rosto para ver se havia algo errado, mas pelo menos ali tudo parecia igual. Percebi também que o vestido estava me afundando, era muito pesado, eu tinha que me livrar dele.
Comecei então outra batalha, meus dedos esquisitos trabalhando com pressa nos fechos. O vestido se soltou e afundou sozinho. Usando só a roupa de baixo, senti meu corpo infinitamente mais leve, talvez eu pudesse me içar para cima agora.
As dores continuavam, mas já reduzidas, e percebi que os peixes tinham me abandonado – possivelmente assustados com minha agitação. Vi-me sozinha no escuro do mar, na solidão e no silêncio... Não, nem tanto silêncio assim.
Eu ouvia os sons do oceano, cada movimento de nadadeiras, remos, cascos de barcos, um eco distinto que eu não conseguia identificar. Havia ainda um coro de vozes de arrepiar. Poderia estar vindo da superfície? Não... parecia morar no próprio mar.
Parei para refletir quanto tempo já tinha ficado ali embaixo. Surpreendentemente, eu não parecia sem ar mais, nem produzia bolhas pelo nariz, só se eu quisesse. Experimentei e não sufoquei como normalmente aconteceria. Estava confortável, como se pudesse simplesmente ficar ali para sempre. Será que eu já tinha morrido?
Senti uma paz e uma sensação de conforto grande, como se eu pertencesse àquele lugar. Ao me dar conta de tudo isso, o desespero voltou. Queria voltar à superfície, o que eu estava fazendo? Tinha que me mover!
Movimentei os pés e comecei a subir. Nem cheguei ao meio do caminho para a superfície, contudo, e vi uma pessoa nadando para baixo, na minha direção. Era um homem jovem. Ele me segurou e nadou comigo para cima. Deixei que me resgatasse.
Assim que saímos para o ar, ele me empurrou para cima, instruindo:
– Vamos, suba no barco, está segura.
Apoiei as mãos na embarcação que de fato estava ali e, com a ajuda dele, consegui subir. Ele entrou no barco logo em seguida, parecendo muito cansado e sem fôlego.
Sabendo que não seria muito normal eu não parecer ao menos um pouco sem ar, ofeguei e cuspi água salgada para fora do barco. O gosto, porém, não me incomodava mais.
O que estava acontecendo comigo? Por que eu tinha passado de um segundo para o outro de quase morta a filha do mar?
Gelei ao pensamento de “filha do mar”. De onde eu tinha tirado isso?
– Você está bem, moça? – O rapaz se aproximou afoito. O barco não era grande nem pequeno, apenas um pesqueiro para duplas ou trios de marinheiros, ou mesmo um sozinho. Olhei ao redor e não vi mais ninguém. – Deixa eu pegar uma manta para você!
Ele se agachou e voltou com o pano, que botou ao redor dos meus ombros. O rapaz parecia meio corado, e era compreensível, porque eu estava de roupa de baixo –molhada, ainda por cima.
Ele embrulhou a si mesmo em algo seco e se sentou na minha frente. O píer não estava longe, mas eu tinha me afastado um pouco, levada pela correnteza e pela minha movimentação relutante.
Então olhei pela primeira vez para o rosto do meu “salvador”. Ele parecia mesmo jovem, mas não muito, talvez fosse um pouco mais velho do que eu, que tinha dezessete. Seus olhos eram azuis escuros como o mar da região no fim da tarde. Tinha cabelos loiros e não muito longos, o que era atípico. As pessoas de Rasminn e do Pontal eram geralmente morenas de cabelos ondulados e compridos.
Os traços dele eram bonitos, assim como seu corpo forte de marinheiro – o que, eu não tinha dúvida, ele era.
– Eu achei que tinha chegado tarde demais e você havia morrido – ele disse.
– Como me achou? – perguntei.
– Eu estava me direcionando ao píer para estacionar quando a vi caindo. Mergulhei imediatamente, mas eu estava um pouco longe.
– Por que fez isso? – perguntei.
– Por que caiu? – ele devolveu a pergunta.
Olhei em seus olhos, sentindo-me tímida.
– Eu estava esperando alguém.
– E? – ele estimulou.
– E comecei a me sentir mal – me rendi. Ele era bem curioso.
– Você está melhor?
– Estou, obrigada.
Eu não tinha ideia do que estava acontecendo comigo, só sabia que queria voltar ao píer, pois talvez ainda desse tempo de encontrar Wes lá. Olhei à distância e, no entanto, não vi ninguém.
– Talvez tenha sido algo que você comeu mais cedo. Tome cuidado – o rapaz disse.
Olhei de volta para ele e algo acendeu em minha mente.
Salizar. Como eu tinha sido tão burra?!
É claro que a culpada pelo mal-estar era a poção que eu havia bebido, lógico! Tinha gosto de alga marinha. Tinha algo a ver com o mar. O que aquele Encantador de uma figa queria dando isso a mim? O que eu teria desencadeado ingerindo aquilo?
Burra, burra, burra!
A frase dele na loja também ecoou em minha memória. “A cor cereja lhe cai bem.”


Continua...

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